Dou a vara, mas não dou o Peixe!!!

“Dou a vara de pescar, mas não dou o peixe!”. Essa sempre foi uma frase que me perturbou muito tal o conteúdo individualista e arrogante nela contido. É muito fácil dizer isso de boca cheia, principalmente quando a boca está realmente cheia... de comida. Há casos em que  há tempo de ensinar a pescar, mas noutros a vara de pesca só servirá para a pessoa em desespero se enforcar. Em muitas ocasiões é preciso primeiro dar o alimento, pra depois a pessoa começar a raciocinar e ter condições de arranjar um emprego.

 

Outra frase absurda que muitos país dizem aos filhos: “Come tudo, filho e limpa o prato, não deixa nada porque tem gente que não tem nem o que comer”. Bom... não é comendo além do limite só pra não deixar migalhas no prato que uma pessoa vai ajudar outra que passa fome. Ela ajudaria se dividisse seu prato com outra ou se fizesse menos comida e doasse o que não vai usar para outra que pudesse aproveitar. Fazer as crianças “limparem” o prato não ameniza a fome de ninguém e muito menos corresponde a uma forma de “agradecer” pelo alimento.

No Conexão Repórter desta quinta foram mostradas algumas pessoas que vivem do lixão. Outras que sobrevivem com os restos das feiras. Eu mesma já fiz uma reportagem num lixão sobre o qual as pessoas construíam suas casas e viviam. Dormiam, comiam e viviam em cima do lixo acumulado... coisas podres, mau cheiro e refeições com comida estragada ou vencida. Uma mulher me falou como ficava feliz quando achava pizza e yogurte vencidos.

Na reportagem do Conexão Repórter foi difícil não se emocionar com um homem dizendo que se tivesse dinheiro gostaria de comer uma lasanha. Algumas pessoas sonham com tão pouco, né? Uma lasanha! A mulher dele chora enquanto diz que sente vergonha de pegar comida no lixo, mas que está feliz porque acharam um peixe inteiro, grande e que deu pra repartir com todos da casa.

Noutra cena uma senhora que sofre de tuberculose e é sozinha no mundo mostra como sustenta os três netinhos numa favela. Ela anda 4 km a pé da feira até em casa pra levar o alimento que cata no final da feira. Mostra pra netinha um belo abacate e diz: “Tá vendo? Vc não queria abacate? Achei um bem bonito!”. E a menina, um tempo depois, se lambuza toda com o prêmio encontrado pela avó nos restos da feira.

 

Às vezes eu fico pensando... por que o dinheiro não está nas mãos de quem poderia dar um jeito nessa situação? Por que o dinheiro sobra nas mãos de gente egoísta que jamais seria capaz de dividir seu peixe e que se der a vara de pescar ainda é capaz de cobrar um dia por isso? Tanta gente solidária podia ter nascido rica e estar acabando com a fome, mas parece q o dinheiro só brota nas mãos de pessoas que só se preocupam consigo mesmas, que enchem o peito orgulhosas de seus dividendos e dizem: “Ensino a pescar, mas não dou o peixe”. Seria mais honesto elas dizerem: “Não ajudo ninguém porque não me sinto obrigado e nem com vontade de fazer isso”.

No jornalismo a gente aprende a jamais ser indiferente. Na verdade, grande parte das pessoas que fazem jornalismo já são bastante sensíveis e carregam dentro de si uma vontade de mudar o mundo.  A gente é chicoteada pelos fatos, vive aquele momento difícil junto dos entrevistados... somente uma porta consegue ficar indiferente.

Lembro que uma vez, num desabamento, uma mulher cheia de crianças comentava que não tinha pra onde ir. Deu uma vontade de levar todo mundo pra minha casa. Mas eu ia precisar ter uma mansão porque no dia seguinte desapropriaram um prédio invadido. Nossa! É tão triste ver o pessoal saindo com suas trouxinhas carregando filhos e animais, panelas, cobertores... tudo tão solto.

Sabe... toda criatura viva quer um cantinho. Qualquer lesminha, qualquer formiguinha quer ter sua casinha. Se eu pudesse dava casa e emprego pro mundo inteiro. E se eu ficasse milionária consertaria a  vida de muita gente.

Primeiro eu daria o peixe e o teto... e só depois daria a vara de pescar. A verdadeira ajuda é enxergar dignidade nas pessoas, é acreditar nelas. Dar a vara sem antes alimentá-las, sem antes tirá-las do desespero é o mesmo que dizer: “Olha... vc é vagabundo, não quer trabalhar e por isso está nessa situação. Toma a vara... mas vê se me devolve depois”. Dar a vara numa situação de emergência não é estender a mão, mas humilhar a pessoa que já não tem mais forças pra acreditar em si mesma.

A senhora que cuida dos três netos assinala que o maior medo dela é morrer e não poder continuar cuidando das crianças. Se eu pudesse, contratava aquela senhora como cozinheira e punha todos na minha casa... que ia precisar ser uma mansão. Infelizmente as mansões estão nas mãos daqueles que nada querem compartilhar. Que acreditam que estão aqui pra cuidarem apenas do próprio umbigo e, no máximo, do umbigo de suas crias.

Se todo mundo que vive bem adotasse uma família pobre, já sentiríamos uma grande diferença. Se todo mundo tivesse pelo menos dois bichinhos em casa, talvez já quase não tivesse animais abandonados nas ruas. Cada um dos rostos da reportagem desta quinta não me saem da cabeça. Há milhões de pessoas nessas condições e até piores. E o dinheiro circulando nas mãos de quem sequer enxerga o outro. O que será que o universo quer nos provar fazendo a fartura fluir por entre aqueles que não têm índole solidária?

 

As pessoas praticam o bem porque são boas ou são boas porque querem se sentir bem?

Sem dúvida, fazer o bem faz bem, especialmente à auto-estima. A gente se sente contente por estar ajudando, contribuindo, interferindo de alguma forma positiva. Mas será a bondade uma ferramenta de autobajulação? Alguns cientistas apontam a benevolência como um gesto que, na verdade, busca muito mais uma satisfação própria do que o apoio ao outro. Bom, de fato, muitas pessoas praticam o bem esperando algo em troca. Muitas, assumidamente, dizem que só ajudam se tiverem algo a ganhar com isso. Transformam a solidariedade numa moeda. Outras fazem o bem para compensar algum mal do passado, como uma espécie de ajuste moral de que necessitam para aliviar suas consciências pesadas.

Mas será que não existe o altruísmo genuíno... a vontade sincera de ajudar o próximo? Em várias espécies animais vemos ajudas bastante improváveis. São animais, inclusive, de espécies diferentes, que se ajudam em casos de emergência. Muitas vezes vemos também pessoas arriscando a própria vida para salvar a de outras com as quais não têm nenhum parentesco. Tem gente que morre tentando salvar um desconhecido de uma tragédia, de um incêndio, um acidente qualquer. A evolução das espécies depende muito disso: da união, da solidariedade. É assim que um grupo cresce, se fortalece. Sociedades egoístas tendem a progredir menos e mais devagar que as que interagem mais, trocam mais experiências, se ajudam mutuamente.

Alguns estudos mostram também que altruísmo está ligado ao QI. Quanto mais inteligentes, mais generosas as pessoas tendem a ser. Isso porque elas já estão num nível de consciência menos selvagem e mais disposto a compartilhar seus bens físicos e intelectuais. Quanto mais inteligente, menos egoísta, mais compreensiva e solidária. É por isso que muita gente inteligente não chega a ficar rica. Riqueza e bens materiais não são as prioridades e sim deixar o mundo melhor. É nesse sentido que surgem os líderes religiosos, políticos e também os heróis. Eles querem mudanças. Muitos trabalham no anonimato e, embora não estejam no comando, também lideram revoluções silenciosas.

Assim... podemos admitir que muita gente é boa porque quer se sentir bem - sua satisfação pessoal encontra-se em primeiro plano. Mas daí não dá pra chamar de bondade. É apenas estratégia de bondade pq é oferecido algo para obter alguma outra coisa ou favor em troca ou para simplesmente alisar o próprio ego. Mas há sim pessoas com solidariedade no DNA, que fazem o bem sem esperar qualquer tipo de compensação. Bom... é minha opinião.

 

Todo mundo pode ajudar os animais com gestos simples em todas as fases da vida. A Gabriela Toledo, por exemplo, na foto acima, pousa com um de seus gatos pra mostrar que não há risco nenhum de passar doenças para o feto apenas convivendo com felinos. Ela compartilhou essa e muitas outras fotos do gênero pelo facebook.

Vem aí mais uma tenebrosa e perigosa sexta 13 para os gatos pretos. Se vc mora perto de um cemitério, faça xerox e cole cartazes na região alertando que é proibido o uso de gatos em rituais. É crime de maus-tratos e as pessoas podem acionar a policia se virem alguém usando gatos. E vamos todos ficar alertas em encruzilhadas, cemitérios e de olho em gatinhos pretos que vivem soltos por aí. Compartilhar essa foto tb ajuda.

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